Com base na obra Orientalismo de Edward Said podemos discutir sua relação com o filme: Um olhar estrangeiro. Em seu livro Said aborda o que é o Orientalismo na cabeça das pessoas. Quando se pensa em Oriente muitos imaginam pessoas com olhos puxados comendo coisas estranhas, como gafanhotos, e tocando grandes gongos. Esse lugar não existe concretamente. É um imaginário criado a partir do repertório que cada indivíduo possui sobre o que é este lugar. Como podemos falar ou até mesmo argumentar sobre algo que não conhecemos?
No filme estabelecemos uma relação semelhante. Pois, o mesmo tema é abordado tendo como pano de fundo o Brasil. Mas não a nação que eu e você conhecemos. Mas, aquela que há na mente das pessoas ao redor do mundo. Essa concepção do Brasil por aí a fora foi subsidiado por muitos filmes rodados aqui e ainda outros que afirmar em seu roteiro se passar no Brasil. Mas nem sequer foram feitos aqui quanto mais têm algo de nosso país nele. Cineastas que “tomavam seu café da tarde” na Europa decidem que vão fazer um filme e roda-lo aqui sem o mínimo de repertório sobre nossa cultura, sem o mínimo de respeito. Pois, não dão a mínima pra imagem errada, distorcida e preconceituosa muitas vezes, que vão passar do Brasil. E é através desses filmes que muitas pessoas têm uma idéia de como é nossa vida aqui. Ainda temos aqueles que acham que apenas jogamos futebol e nos divertimos o ano todo, constantes férias. Mesmo que eles sirvam para mostrar ao mundo que existimos e que possa de maneira indireta fomentar o desejo dos estrangeiros virem conhecer o país. Já chegam com o pé esquerdo, com uma expectativa que na maior parte das vezes é frustrada logo de cara.
Dessa mesma maneira outros lugares no mundo têm sua imagem difundida, mesmo que transmutada, ao redor dos continentes.
É praticamente absurdo e inconcebível esse conceito de Oriente. Podemos encontrar lá uma variedade de culturas gigantesca. Não dá pra generalizar tudo colocar dentro de um saco plástico e levar de novo pra Europa afirmando conter a essência oriental. A África já é uma fatalidade da Europa que simplesmente colonizou e a fatiou como bem entendeu. Quem menos tem voz lá são os que já viviam lá antes de serem colonizados pelos europeus. Pois bem, encontramos uma variedade de culturas muito grande. Existem mais de 200 dialetos em apenas um continente. É inaceitável coloca-los no mesmo “pacote” que os árabes, que possuem costumes e crenças absurdamente diferentes. A expansão tecnológica é outro fator determinante nessa diferenciação também. Porque se olharmos onde se encontra o avanço de tecnologia no Japão e compara-lo ao que existe, ou não existe na África. É realmente impossível afirmarmos que o Oriente existe como um lugar unificado.
O Indivíduo múltiplo
Um mesmo indivíduo pode apresentar atitudes controversas. Dependendo do contexto em que se encontra.
O sujeito era algo centrado e tudo era organizado a partir dele. A identidade algo imutável que se recebia ao nascer. Algo coerente e coeso. A identidade só se torna uma questão a partir do momento que está em crise. Mais tarde é acrescentado pelos sociólogos que o sujeito não é composto apenas de seus elementos interiores. Mas sim da relação interior e exterior.
E por fim esses conceitos sobre a identidade têm sido substituídos pela concepção de que um indivíduo armazena em si uma variedade de opiniões nem sempre coesas que se afloram de acordo com o contexto e necessidade.
Esses conceitos acima citados são baseados no livro Identidade Cultural do autor Stuart Hall. E a partir dele será relacionado com o filme: Crônica de um Verão de Jean Rouch e Edgar Morin na década de 60 que foi premiado no festival de Cannes. No filme várias pessoas são entrevistadas e fisgadas pela pergunta: Você é feliz? Que é apenas um mote para que ela se abra e fale sobre as questões de sua vida.
A felicidade não é um estado de espírito, mas um ideal a ser seguido. Como o ideal de beleza grego que servia apenas como referência. A felicidade é colocada em xeque por alguns dos entrevistados. Pois o modo de vida que muitos levavam na época, da Revolução Industrial, era extremamente frenético e repetitivo. Acordar, trabalhar e depois descansar para poder trabalhar novamente. Um deles até afirma que isto é trabalhar vinte e quatro horas por dia afinal. Outros buscam um modo de vida alternativo, passam momentos do dia sem fazer nada, arrumam coisas inúteis para fazer. É aí que começa a ser questionado se todos devem de fato seguir o “band wagon”. Um caso interessante de ressaltar é o de um operário que durante o horário de expediente é uma pessoa e a partir das 6:00 hs é outra bem diferente. O que já coloca em dúvida a afirmação iluminista sobre o indivíduo que é um ser imutável o tempo inteiro. Outro aspecto é a característica do ser moderno ser muito individualista. Tomemos o exemplo dos parisienses que trabalham arduamente o dia confinado em uma empresa para gastar seu salário comprando coisas que lhe proporcionem um status e uma suposta felicidade.
No filme é proposta um novo formato de cinema, o cinema verdade. Sem a ficção das histórias onde os personagens são os próprios atores em sua vida real. Mesmo não pode ser considerado uma verdade absoluta. Porque é uma verdade baseada na ótica dos cineastas. Sempre haverá uma manipulação das informações e do modo em que elas são apresentadas ao espectador.
Um personagem que ganha ênfase dos diretores é Landry um africano que vai para Paris é sofre esse choque entre as culturas e começa a questionar essas diferenças como a dos operários ali possuírem carro e saírem à noite, uma realidade bem diferente da vivida na África. Outra passagem interessante vivida pelo menino é quando se escandaliza com o toureiro que tortura o animal, e as pessoas admiram aquilo, e o menino questiona: E vocês ainda nos chamam de selvagens? Mais uma das experiências de Landry que deve ser comentada é sua crítica as roupas de banho usadas pelas pessoas em Saint Tropez que são os biquínis e ele novamente questiona: Temos lugares na África onde as pessoas cobrem seus sexos usando somente folhas, e qual a diferença entre aquilo e um biquíni?
O metrô da modernidade tardou a chegar a América Latina
Modernizar não é a meta mais prioritária em nosso continente latino-americano como muitos políticos, economistas e a publicidade afirmam. Aqui a modernidade chegou tardia não pode ser comparada à época e maneira como chegou aos continentes já desenvolvidos. Menos ainda se faz necessário falar de uma pós-modernidade. “Querem ensinar a fazer comida uma nação que não tem ovo na panela”. Pois, nem saímos da modernidade. Quando surge uma concepção ela nega a anterior. Porém, não a supera. Elas são sobrepostas, uma segrega a outra. Nossa modernização possui contradições e fracassos e estes devem ser interpretados profundamente.
A evolução traz consigo coisas como a desordem, o engarrafamento de trânsito, manifestações de protesto e a cidade é obrigada a dar conta de tudo isso. A relação do tradicional com a modernidade é complexa. O que é tradicional acaba não sendo totalmente apagado pela industrialização mas sendo acoplado a ela.
A modernidade deixa menor a função do popular e culto tradicionais, porém não os suprime. Dá uma nova dimensão a eles e também a outros como a cultura industrializada. Outro aspecto que precisa crescer neste momento é a economia. É necessário deixar para trás as antigas estruturas como alianças informais e corrupção.
Neste momento que vivemos a história toma rumos em muitas direções, toda conclusão está atravessada pela incerteza. O estado moderno não diz respeito unicamente a espaço de tempo. Mas uma condição que reúne as megalópoles, os campos e países subdesenvolvidos. O movimento modernizador criou novos fundamentalismos que podem ameaçar as nações envolvidas como também pode potencializá-las.
O conteúdo clássico acumulado passa a ser difundido não apenas por si mesmo. Mas ganha força e fraquezas sendo transferido para as tecnologias da informação como os PC’s. Propicia uma democratização da arte e uma glamurização do popular.
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